Ao longo dos anos, observando pessoas na clínica, percebi algo curioso:
Muitas vezes pensamos que sofremos pela falta de um presente.
Mas, olhando mais profundamente, percebemos que a dor quase nunca está no objeto.
As pessoas sofrem pela falta de presença.
E talvez essa seja uma das maiores confusões da nossa época.
Vivemos em uma sociedade onde quase tudo pode ser comprado.
Flores.
Jantares.
Viagens.
Joias.
Experiências.
Mas existe algo que continua impossível de adquirir:
atenção genuína.
Talvez por isso tantas datas comemorativas produzam sentimentos tão contraditórios.
Enquanto alguns celebram, outros se frustram.
Enquanto alguns recebem presentes, outros continuam sentindo vazio.
Enquanto alguns publicam declarações, outros se perguntam por que continuam se sentindo sozinhos mesmo acompanhados.
Não há nada de errado em presentear.
Dar algo a quem amamos pode ser uma forma legítima de afeto.
O problema surge quando o presente tenta ocupar o lugar da presença.
Quando a lembrança substitui o encontro.
Quando a embalagem tenta compensar aquilo que não está sendo vivido.
Recentemente, uma paciente chegou ao consultório, já em um dos protocolos de individuação criados por mim, profundamente magoada porque o marido não havia lhe dado presente.
Conversamos longamente.
E, em algum momento, surgiu uma pergunta simples:
“O que exatamente está doendo?”
Era a ausência do presente?
Ou a sensação de não se sentir vista?
Porque essas são coisas muito diferentes.
Vejo casais que trocam presentes caros e mal se escutam.
Pais que oferecem tudo aos filhos, exceto tempo.
Amigos que lembram datas importantes, mas não percebem quando alguém está sofrendo ou entram em competição de “sofrências” quando ele decide falar que não esta bem.
Pessoas que sabem exatamente qual foi o dia do primeiro beijo, mas já não conseguem sustentar uma conversa verdadeira por alguns minutos sem olhar para uma tela, cujo conteúdo não faz parte do contexto.
Talvez estejamos confundindo demonstração de afeto com experiência de afeto.
Uma coisa é simbolizar amor.
Outra é amar.
Existe uma diferença entre entregar algo e perceber alguém.
Entre comprar algo e estar com alguém.
Entre lembrar uma data e construir presença de forma consistente, mesmo com espaço de tempo.
Lembro de uma vizinha que certa vez me trouxe um doce feito por ela.
Não era caro.
Não era sofisticado.
Provavelmente não apareceria em nenhuma propaganda de datas comemorativas.
Mas havia algo ali que dinheiro nenhum comprava:
tempo.
Cuidado.
Intenção.
Presença.
E talvez seja exatamente isso que torna alguns gestos inesquecíveis.
Não o valor.
Mas a verdade.
Tenho observado, há anos, pessoas sentadas à mesma mesa olhando para telas diferentes.
Casais em restaurantes fotografando o jantar antes de se olharem.
Famílias inteiras dividindo o mesmo espaço sem dividir a própria atenção.
Estamos mais conectados do que nunca.
E, paradoxalmente, mais ausentes.
Por isso, talvez a pergunta mais importante deste Dia dos Namorados não seja:
“O que vou dar?”
Mas:
“Como vou estar?”
Porque presença não pode ser terceirizada.
Não pode ser parcelada.
Não pode ser comprada.
Ela exige algo muito mais raro:
escolha.
Escolha de ouvir.
Escolha de perceber.
Escolha de interromper distrações.
Escolha de estar inteiro diante de alguém.
E isso vale para relacionamentos amorosos, para amizades, para filhos, para pais.
Vale para qualquer vínculo que deseje permanecer vivo.
Talvez o maior presente não seja aquele que chega embrulhado.
Talvez seja aquele que chega sem embalagem alguma:
um olhar atento.
Uma conversa sem pressa.
Uma escuta verdadeira.
Um abraço que não está tentando resolver nada.
Apenas estar.
Porque presentes podem ser esquecidos.
A presença, não.
Mas talvez exista uma camada ainda mais profunda nessa reflexão.
Antes de perguntarmos se estamos presentes para alguém, existe uma pergunta anterior:
eu estou presente em mim?
Porque é difícil oferecer aquilo que ainda não construímos dentro de nós.
Muitas vezes buscamos no outro aquilo que ainda estamos tentando encontrar:
validação,
segurança,
pertencimento,
confirmação de valor.
E, sem perceber, tentamos preencher ausências internas com símbolos externos.
Não porque o gesto seja falso.
Mas porque nenhum presente consegue substituir um encontro que ainda não aconteceu dentro de nós.
A verdadeira presença começa nesse lugar.
No encontro consigo.
Na capacidade de habitar a própria existência sem precisar desaparecer para ser amado.
Esse talvez seja um dos movimentos mais profundos da individuação:
não nos afastar das relações,
mas permitir que elas aconteçam sem que precisemos abandonar quem somos.
Porque quem não se encontra consigo pode passar a vida procurando no outro uma resposta que nenhum presente conseguirá entregar.
O verdadeiro presente é estar inteiramente presente.
E talvez o primeiro lugar onde precisamos chegar para oferecer presença a alguém seja:
nós mesmos.




