Sobre leituras, psique e cuidado

Existe uma crença amplamente disseminada de que livros sempre curam.
Na clínica, aprendi que isso não é verdade.
Livros também abrem.
E nem toda psique está no momento de abrir.
Ao longo dos anos, muitas pessoas me perguntam:
“Dra., o que a senhora indica para eu ler?”
Essa pergunta nunca foi simples para mim.
E não é por controle, é por cuidado.
Quando acompanho alguém de forma próxima, muitas vezes indico leituras. Nesse contexto, consigo sustentar, elaborar e acolher os movimentos internos que uma leitura provoca.

Fora desse espaço clínico, porém, uma indicação descuidada pode gerar mais confusão, angústia ou inflamação psíquica do que alívio.

Por isso, faz parte da minha ética profissional diferenciar leituras de sustentação de leituras de transformação, sempre levando em consideração a pessoa que me solicitou a indicação.

As primeiras organizam, acolhem, nomeiam emoções, fortalecem limites e oferecem companhia ao sofrimento humano.

As segundas abrem conteúdos profundos, arquetípicos e existenciais e exigem continente, tempo e presença clínica.

Não se trata de proibir, frear ou empobrecer o caminho de ninguém.
Trata-se de respeitar o tempo da psique.
Buscar sentido é legítimo.
Ser sensível não é fraqueza, muito menos patologia.
Mas aprofundar sem chão pode, sim, adoecer.

Enquanto alguns processos pedem silêncio, rotina e cuidado básico, outros pedem leitura, simbolização e ampliação de consciência. Confundir esses momentos é uma forma sutil e bastante comum de violência contra si mesmo.

Por isso, quando indico leituras fora do acompanhamento clínico, procuro fazê-lo por categorias seguras e não por promessas de cura ou iluminação.

Também considero importante lembrar que bons livros nem sempre são os mais vendidos, nem os mais difundidos.

Vivemos um tempo em que a escrita se tornou extremamente acessível. Isso democratiza a produção de ideias, mas também dilui critérios. Nem toda obra publicada nasce do compromisso ético com o cuidado humano e, assim como outras formas de informação, a leitura também pode ser direcionada por interesses que nem sempre favorecem a saúde psíquica coletiva.

Por isso, cuidar da psique também envolve discernimento.
Às vezes, saber o que ainda não é hora de ler é tão importante quanto escolher bem o que ler.
Quando feito dessa forma, esse cuidado não é um limite imposto ao outro.
É um compromisso com a vida psíquica, que é delicada, profunda e merece respeito.

A psiquiatria não se limita a diagnósticos e tratamentos farmacológicos.
Ela também pode ser o cuidado atento com aquilo que, muitas vezes, parece sutil.