Voltar para si não é egoísmo

Há um momento, quase sempre silencioso, em que a pessoa começa a se afastar, não do outro, mas de si mesma.

No início, isso costuma ser chamado de amor. Depois, de cuidado. Mais tarde, de compromisso.

Até que, sem perceber, passa a ser a obrigação de continuar sendo quem já não se é.

Voltar para si não é abandonar relações. É interromper o autoabandono.

Existe uma confusão profunda, ensinada cedo demais: como se escolher a si mesmo fosse egoísmo, como se colocar limites fosse frieza, como se honrar a própria verdade fosse ferir o outro.

Sim, às vezes fere. Mas não por maldade de quem começa a perceber que a individuação é um caminho inevitável do amadurecimento psíquico.

Fere, muitas vezes, pela falta de inteireza do outro e um dos efeitos colaterais desse momento da vida é a intensificação das projeções.

Relações não adoecem porque alguém volta para si. Elas adoecem quando alguém se perde de si e passa a viver em função de expectativas, medos ou culpas.

Ou, mais precisamente, quando passa a sobreviver acreditando que está vivendo.

Voltar para si dói. Dói porque revela o quanto se permaneceu onde já não se cabia.

Dói porque desmonta personagens que garantiam pertencimento.

Dói porque encerra pactos silenciosos que nunca foram justos. Mas não há como enxergar o outro de forma verdadeira sem o encontro profundo consigo mesmo.

Não há reconhecimento genuíno do próximo sem alguma revelação interna. Esse retorno também não é o motivo pelo qual tantas pessoas endurecem.

Quando autêntico, ele não isola, integra. Integra quando a coragem de seguir o que é verdadeiro se torna maior do que o medo de perder ilusões de pertencimento, segurança ou proteção. Porque o que é verdadeiro não exige performance nem pede que alguém deixe de ser quem é.

Quem volta para si não precisa vigiar, não implora presença, não negocia dignidade. E já não chama sobrevivência de amor. Voltar para si é um gesto interno. Nem sempre visível. Nem sempre compreendido.

Às vezes solitário no início. Mas, paradoxalmente, pode ser um dos maiores atos de responsabilidade afetiva que alguém pode assumir. Porque olhar profundamente para dentro não é apenas um gesto individual.

Quando alguém se encontra de verdade, algo também se reorganiza na forma como essa pessoa passa a estar no mundo. E é aí que algo muda.

Quando você retorna, o corpo para de gritar, a intuição volta a sussurrar, e aquilo que antes era confusão

começa, lentamente, a ganhar forma. Voltar para si não é egoísmo. É o ponto exato em que o amor deixa de ser sacrifício e passa, finalmente, a ser escolha.

Vanessa Adegas Roese
Médica psiquiatra
CRM 22011 / RQE 12908
“Psiquiatra das Almas”
(Expressão autoral).